quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Somos, nada.

Dizem que um dos maiores dilemas do ser humano é encontrar algo para ser, em outras palavras, se definir.
Definições são várias: Nome, idade, nacionalidade, cor, credo, profissão, filiação, time, opção sexual (se é que existe opção sexual), cor favorita, endereço, posses e por aí vai...

O principal problema nisso é que sempre será necessário outros seres humanos que acreditem no que se diz: -sou pedreiro, sou padre, moro na rua tal, tenho (ter alguém é outra coisa esquisita) uma esposa e dois filhos, frequento a religião "x", torço para o time "y", tenho duas casas, etc. Toda vez que tal definição sobre si próprio é lançada, automaticamente é necessário que existam outras pessoas para poder comprovar o fato.

Então, um sujeito morando sozinho em uma ilha, tal qual o náufrago, é um nada??? Bem, não é necessário uma ilha, basta estar sozinho em casa, e sem eletricidade, acordado as duas da manhã para perceber o nada que se é.

Muitos sofrem por não conseguirem admitir que são nada, o que aliás é curioso também, o que é ser algo que não se é? Ou nada é algo? Deixa pra lá...

Resumindo: quem não consegue aceitar a ideia de não ser nada precisa sempre mostrar tudo o que faz para os outros, o tempo todo. Isto explica, pelo menos em parte, uma pessoa fazer uma festa e colocar o som bem alto com uma música muito ruim, ou todos os tipos de barulhentos em geral, é preciso chamar a atenção de outrem para se sentir ou acreditar que é algo, ou alguma coisa.

O lado legal de aceitar ser um nada é que existe liberdade nisso, pois sem as delimitações é possível viver uma vida mais leve. Quer dizer, a pessoa vai estar em sociedade, vai adquirir bens, vai se casar e gerar (e não, ter) filhos, vai exercer uma profissão, mas não vai acreditar na grande piada.

O que seria a grande piada?

Ora, toda vez que alguém diz que representa algo, está caindo na grande piada. Um pastor que diz que ora em nome de Deus, um policial que diz que trabalha em nome da lei, um juiz que emite uma sentença em nome da justiça, um guitarrista que diz que faz música em nome da música, dentre outros, estão na verdade caindo na grande piada se estiverem se levando a sério.

Sim, sim, temos que ter objetivos, temos que querer o aprimoramento, mas acreditar nas definições é insano, e manter as definições exige muita energia. Aceitar ser, ou não ser, sem definições possíveis é encontrar a paz de espírito.