quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Música e bolo de chocolate.

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Uma analogia do processo de fabricação de um bolo industrializado de chocolate que a gente compra no supermercado com o processo de fazer música ou arte em geral.


Bolo de Chocolate de supermercado:
Provavelmente vocês já comeram do bolo de supermercado de marcas famosas não é?
Pois bem, o que ocorre com o bolo?
Ele é feito seguindo uma receita super bem elaborada, onde os ingredientes são pesados em balanças de precisão, o tempo de cozimento e as temperaturas são controladas por computador, enfim, o processo é todo padronizado e muito bem controlado.
O que acontece é que sempre que comprarmos o bolo da nossa preferência ele sempre terá o mesmo sabor que a gente conhece.
Se colocarmos uma pessoa qualquer lá e ensinarmos a ela todo o processo, rapidamente ela conseguirá fazer o bolo, e ele terá o mesmo sabor, talvez o que leve mais tempo é o domínio sobre o equipamento, mas o bolo em si terá o mesmo resultado, na verdade não importará quem o faz, o sabor será sempre o mesmo.

Agora, imaginem o bolo que a nossa querida avó faz (ou fazia)...
Ela também segue uma receita, mas é tudo no olhômetro, nossa querida vovózinha segue o coração... Um tanto de açúcar, um tanto de farinha, mexe aqui, coloca no forno e vai olhando até ficar bom. O bolo da minha avó é infinitamente melhor do que qualquer um destes bolos industrializados, o bolo não tem sempre o mesmo sabor, ele varia de acordo com o estado de espírito dela. O interessante é que mesmo olhando e copiando os procedimentos dela, o bolo não ficará nem de perto com o mesmo sabor. Sabem o porquê?
Simples: Há toda uma vida ali! Sentimento, experiência e tudo o mais.
E o que isso tem a ver com música ou arte?
Estudando música, técnica e respondendo dúvidas de alunos ou de pessoas que sempre me perguntam sobre aspectos musicais em forums, além de sempre assistir a guitarristas no youtube, todos eles famosos no meio, mas não vou citar nomes por questões éticas, percebi que quando improvisam usam arpejos, padrões, ligados, tappings e o diabo a quatro, mas tudo soa muito, mas muito igual, soa asséptico. O cara decora um lick de arpejo por exemplo, treina até dominar, e depois ele enfia o tal lick em toda música ou improviso, desconsiderando o contexto, ou o ritmo da música em questão e sabem o que acontece?
A música fica tal qual o bolo industrializado, o guitarrista aprendeu a receita dominou as técnicas necessárias e aplicou os estudos na sua música, mas como falado, o resultado não se parece com música mas sim exercício musical.
Dá trabalho fazer isto, afinal para dominar um instrumento são necessários anos e anos de treino árduo, não desmereçamos isto, mas cá entre nós, se a música ou arte em geral puder se resumir à técnica, o resultado final ficará robótico, pasteurizado...
Idem aos jazzistas que aprendem seqüências infinitas de cadências e substituições que foram aprendidas em escolas, mas que também não soam nada musicais, apenas se encaixam...
Agora assistam a B.B. King, S.R.V., Eddie Van Halen, David Gilmour, Angus Young dentre outros, reparem que eles também usam licks, escalas e tudo o mais, mas eles o fazem respeitando o ritmo e o contexto, por isso o mesmo lick soa diferente em cada música, parece que tudo o que estes caras tocam soa bonito e musical e também por isso é eles estão no topo. A música que estes grandes artistas fazem podem ser comparados ao bolo da minha amada Vovózinha, inigualáveis, sempre surpreende, e o que é melhor, emociona.

Reparei que muitos alunos e em muitos tópicos, todo mundo quer uma receita para improvisar, para compor, para tirar solos, parece que todo mundo busca o exercício ou a receita mágica para criar.

Mas acreditem, isto não existe, e se existem métodos, eles não funcionam pois métodos são caminhos para estudar o que já está estabelecido e servem para sedimentar uma boa base que está sendo construída, mas só.

Infelizmente esta é a verdade e quem quer fazer arte, ou em qualquer profissão, tem que se dedicar de corpo e alma e deixar o ego ou o glamour da ferramenta pra trás, tem que buscar a essência de sua própria mensagem e conseguir transmiti-la.
Claro, há todo um mercado em torno da técnica porque os iniciantes e muitos leigos se impressionam quando alguém tem uma técnica impressionante, mas no fundo técnica pura é papo furado, a técnica deveria ser o meio e não o fim.

O som, as notas, as escalas vêm do coração gostem vocês disso ou não.

É como dizem os grandes:

“Tudo é muito simples, mas o caminho é longo.”

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